Território, Políticas Sociais e Cuidado
Resumo
Há publicações que apenas reúnem textos. Outras, mais raras, inauguram travessias. Esta edição do Caderno Humanidades em Perspectivas nasce desse segundo gesto: não se limita a organizar produções acadêmicas, mas convida o leitor a atravessar paisagens humanas marcadas por contradições, cuidados, lutas e possibilidades. O que aqui se tece é um mosaico vivo, no qual cada artigo preserva sua singularidade e, ao mesmo tempo, dialoga com os demais, compondo um campo sensível de reflexão sobre o humano em sua historicidade, vulnerabilidade e potência transformadora. Pensar Humanidades, neste caderno, é recusar respostas fáceis. É caminhar por territórios onde ciência, ética e compromisso social se entrelaçam, desafiando o leitor a ver além do aparente e a escutar o que vibra nas margens do discurso oficial.
Nesta Edição do Caderno Humanidades em Perspectivas, a travessia se inicia com o artigo Procedimentos metodológicos: esquemas pragmáticos para efetivação de amostragem por aproximação em território, que recorda um princípio fundamental da pesquisa social: não há conhecimento neutro, deslocado da vida. Ao discutir métodos e delineamentos investigativos, o texto afirma o rigor científico como prática situada, ancorada no território e nas relações humanas que o constituem. A metodologia aqui não se apresenta como ferramenta fria, mas como postura ética e política, capaz de tensionar fronteiras disciplinares e fortalecer abordagens qualitativas e interdisciplinares comprometidas com o real vivido. Na mesma direção, o artigo A pesquisa sobre o Sistema Único de Assistência Social no Brasil: uma revisão sistemática amplia o olhar sobre o SUAS como campo de disputas e resistências. Entre avanços importantes e lacunas persistentes, o texto evidencia os impactos de financiamentos instáveis, cortes orçamentários e desafios operacionais, sem perder de vista a força coletiva que sustenta a política de assistência social. A análise reafirma a centralidade do conhecimento científico na defesa dos direitos sociais e convoca à consolidação do SUAS como política de Estado, sustentada por equipes multiprofissionais fortalecidas e por uma compreensão ampliada do fazer socioassistencial. As tensões entre desenho e implementação das políticas públicas ganham contornos mais nítidos em A estigmatização de assistidos e a titularidade feminina no Programa Bolsa Família: uma análise sob a ótica do paradigma crítico-dialético. Ao problematizar a titularidade feminina, frequentemente celebrada como conquista, o texto revela as sobrecargas e estigmatizações que recaem sobre as mulheres, especialmente as mães. Gênero e classe atravessam a análise, desvelando conflitos estruturais e questionando narrativas que simplificam experiências complexas, abrindo espaço para uma leitura mais crítica dos impactos concretos das políticas sociais na vida cotidiana das famílias. O diálogo entre política pública, território e sustentabilidade emerge com força em Programa Nacional de Alimentação Escolar e o desenvolvimento rural sustentável: um estudo de caso na região Centro-Oeste do Paraná. O PNAE é apresentado como prática concreta de integração entre alimentação, educação e desenvolvimento local. Ao mesmo tempo em que fortalece a agricultura familiar e dinamiza economias rurais, o programa revela desafios organizacionais, logísticos e técnicos que tensionam sua efetivação. Entre renda garantida e transição agroecológica, o texto mostra que políticas alimentares também produzem vínculos sociais, pertencimento comunitário e transformações ambientais. Já, o mundo do trabalho na assistência social é examinado sob lentes críticas no artigo Influência de variáveis sociodemográficas na percepção de assédio moral no âmbito do SUAS. A pesquisa evidencia como idade, raça e contexto regional incidem na experiência do assédio moral, revelando desigualdades profundas e sofrimentos silenciados. Jovens trabalhadores e pessoas negras aparecem como grupos particularmente vulneráveis, o que reforça a necessidade de intervenções institucionais sensíveis às diferenças. O assédio moral é compreendido não como questão individual, mas como expressão de estruturas organizacionais e sociais desiguais.
As transformações do trabalho profissional frente ao avanço tecnológico são problematizadas em As tecnologias de informação e comunicação e suas repercussões no trabalho do assistente social. A partir da experiência do INSS, o texto explicita ambiguidades: se as TICs ampliam acesso e agilidade, também tensionam o sigilo, a autonomia profissional e a qualidade do atendimento. Metas, produtividade e automatização desfiguram, por vezes, a natureza relacional do trabalho social, convocando uma reflexão urgente sobre tecnologia, ética e cuidado. O cuidado, aliás, atravessa de forma sensível o artigo O Serviço Social em Cuidados Paliativos na Oncologia. Diante da finitude, o texto recoloca a dignidade da vida no centro do debate e apresenta o Serviço Social como mediação essencial entre pacientes, famílias e equipes multiprofissionais. O cuidado ultrapassa a dimensão biomédica e se afirma como prática integral, ética e humana. A recente institucionalização dos Cuidados Paliativos no SUS reforça a urgência de ampliar e qualificar essa atuação, especialmente frente ao crescimento dos casos de câncer no país. Seguindo a produção científica na esteira da saúde, a relação entre sofrimento psíquico e dor física é abordada em Síndrome de Burnout e Fibromialgia: relação e impactos na saúde dos trabalhadores. Ainda que a produção científica sobre o tema seja incipiente, o texto revela indícios preocupantes sobre os efeitos da organização contemporânea do trabalho, marcada por metas inatingíveis, jornadas extensas e pressão constante. O adoecimento do corpo e da subjetividade aparece como alerta e convite à reconstrução de ambientes laborais mais saudáveis e humanos. Questões de gênero e dignidade emergem com força em A dignidade menstrual no Brasil: reflexões sobre políticas públicas e desigualdade de gênero. O cotidiano é afirmado como campo de disputa política. A pobreza menstrual, longe de ser tema periférico, é apresentada como questão de saúde pública, educação e justiça social, que aprofunda desigualdades e exclusões. O texto convoca Estado e sociedade a romperem silêncios históricos e a assumirem compromissos contínuos com a dignidade das pessoas menstruantes.
As trajetórias profissionais da população trans ganham visibilidade em Dificuldades socioprofissionais na população trans. As narrativas revelam avanços importantes, mas também barreiras persistentes no mercado de trabalho e nos espaços formativos. O trabalho é reafirmado como dimensão central da cidadania e do reconhecimento social, exigindo ambientes mais diversos, acolhedores e comprometidos com a inclusão. A intersecção entre raça e proteção social é aprofundada em Proteção social e disparidades raciais: questões de raça/cor no serviço de acolhimento de crianças e adolescentes negros em Campos dos Goytacazes (RJ). A predominância de crianças e adolescentes negros no acolhimento institucional desnuda o racismo estrutural e as violações históricas de direitos. Ao adotar raça/cor como categoria analítica, o texto reforça a urgência de políticas públicas que enfrentem o racismo de forma explícita e promovam justiça racial efetiva. Encerrando o caderno, (Over)sharenting: os riscos da exposição de crianças na internet, lança luz sobre um paradoxo contemporâneo: a visibilidade excessiva como forma de vulnerabilização. A exposição infantil nas redes é problematizada como negligência involuntária de direitos, envolvendo riscos à privacidade, à segurança e à saúde emocional. O texto convoca à responsabilidade coletiva e reafirma que, também no ambiente digital, a proteção da infância deve ser prioridade. Esta edição se completa com a resenha vencedora do Concurso de Resenhas Dorival da Costa (2025), intitulada Supervisão de Estágio em Serviço Social: da formação ao exercício profissional, fruto da escrita crítica de estudantes do curso de Serviço Social do Centro Universitário Internacional Uninter.
Que este caderno surpreenda o leitor, não pelo excesso, mas pela densidade. Que cada texto seja vivido como encontro, deslocamento e convite à reflexão. Porque pensar o humano, em perspectiva, é aceitar o desafio de não permanecer o mesmo ao final da leitura.
Sejam todos e todas bem-vindos e bem-vindas às leituras desta Edição do caderno Humanidades em Perspectivas.
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